Ainda me lembro do dia em que nasci! Uma máquina deu-me à luz numa fábrica Italiana. Eu e os meus irmãos estávamos na moda...
Fiquei tão feliz quando me trouxeram para Portugal. No início fui para um stand de automóveis e fiquei exposto ao público. Todos admiravam a minha beleza, até as crianças babavam, os vidros do stand, a olhar para mim. Eu era o objecto dos seus sonhos, disto tenho a certeza... muitos sonharam comigo estacionado à sua porta.
Até que um dia fui adquirido, o meu dono tinha cinco filhos, mas tratava-me bem: limpava a sujidade que os miúdos faziam nos meus estofos e verificava o nível do óleo e da água quando me lavava no seu jardim. Depois, de limpo e asseado, arrumava-me na garagem. Todos os anos mudava-me os pneus e fazia a averiguação da minha saúde no meu concessionário. Era um automóvel ligeiro de passageiros... feliz!
Os meus documentos estavam organizados para fazer face a qualquer intervenção policial. Na minha vida só fui alvo de uma operação Stop, vejam uma só vez! A minha presença impunha respeito e fazia inveja aos carros da vizinhança.
A causa, de alguns momentos infelizes, estava na existência dos sucateiros. Tinha pesadelos, com o desmantelamento dos meus membros era horrível... acordava sempre sobressaltado e molhado de suor.
Assim se passaram os anos, já contava com dois anos, quando o meu proprietário comprou o modelo mais recente da minha série e entregou-me como moeda de troca. Quando os vi afastarem-se, no meu rival, o meu coração sentiu uma profunda tristeza e fiquei amuado durante uns dias.
Os meus receios e amarguras dissiparam-se quando vi que muitos indivíduos se mostravam interessados em comprar-me e, além disso, estava sempre asseado. Alguns dos meus pretendentes eram tão brutos, nestas alturas temia pela minha saúde...
Num belo dia de Primavera, um jovem casal angariou-me e levou-me para casa. Eles não tinham jardim, nem garagem, viviam numa caixinha situada no sexto andar do bloco B. Eu ficava na rua ao relento, sujeito às atrocidades do tempo...
Quem me conduzia era a mulher, um autêntico maçarico na arte da condução. A minha caixa de velocidades era a sua vítima preferida, agarrava-se a ela até fazer as mudanças gemerem...
Teve vários acidentes comigo aquela aselha, uma vez atropelou um sinal de trânsito, outra vez estava a fazer marcha-atrás e bateu contra um contentor. Depois dizia ao marido que eu não estava bom. Ela não andava a pé, arrastava-me sempre consigo e, por isso, estava cada vez mais gorda, desprezava-a!
Certo dia venderam-me a um universitário maluco e alcoólico, fazia de mim “gato e sapato”, ajudava-o nas conquistas e servia-lhe de alcofa nos flirts.
Numa noite chovia torrencialmente, o jovem insensato estava muito embriagado e fazia-me deslizar a grande velocidade, carregava no acelerador como um louco, julgava-se o dono da estrada, por isso fazia-me rodar na faixa contrária, devido a esta insensatez fez-me embater contra um camião. O meu boémio dono faleceu. Fui levado para a sucata! Todos os dias alguém vem à procura de peças... sou desmembrado e humilhado.
Sinto que a ferrugem se apodera do meu corpo. Já não consigo distinguir a minha cor original. Sofro na solidão... o jovem pôs fim à sua vida e à minha por causa do álcool e das suas aventuras perigosas – guiar na via contrária.
Os guardas nunca o fizeram parar quando estava embriagado porque conheciam-no, ele tinha um irmão que pertencia ao mesmo corpo de polícia.
Se a lei fosse rígida e igual para todos... eu estaria a circular pelas ruas da cidade, carregando a felicidade no meu coração.
Fiquei tão feliz quando me trouxeram para Portugal. No início fui para um stand de automóveis e fiquei exposto ao público. Todos admiravam a minha beleza, até as crianças babavam, os vidros do stand, a olhar para mim. Eu era o objecto dos seus sonhos, disto tenho a certeza... muitos sonharam comigo estacionado à sua porta.
Até que um dia fui adquirido, o meu dono tinha cinco filhos, mas tratava-me bem: limpava a sujidade que os miúdos faziam nos meus estofos e verificava o nível do óleo e da água quando me lavava no seu jardim. Depois, de limpo e asseado, arrumava-me na garagem. Todos os anos mudava-me os pneus e fazia a averiguação da minha saúde no meu concessionário. Era um automóvel ligeiro de passageiros... feliz!
Os meus documentos estavam organizados para fazer face a qualquer intervenção policial. Na minha vida só fui alvo de uma operação Stop, vejam uma só vez! A minha presença impunha respeito e fazia inveja aos carros da vizinhança.
A causa, de alguns momentos infelizes, estava na existência dos sucateiros. Tinha pesadelos, com o desmantelamento dos meus membros era horrível... acordava sempre sobressaltado e molhado de suor.
Assim se passaram os anos, já contava com dois anos, quando o meu proprietário comprou o modelo mais recente da minha série e entregou-me como moeda de troca. Quando os vi afastarem-se, no meu rival, o meu coração sentiu uma profunda tristeza e fiquei amuado durante uns dias.
Os meus receios e amarguras dissiparam-se quando vi que muitos indivíduos se mostravam interessados em comprar-me e, além disso, estava sempre asseado. Alguns dos meus pretendentes eram tão brutos, nestas alturas temia pela minha saúde...
Num belo dia de Primavera, um jovem casal angariou-me e levou-me para casa. Eles não tinham jardim, nem garagem, viviam numa caixinha situada no sexto andar do bloco B. Eu ficava na rua ao relento, sujeito às atrocidades do tempo...
Quem me conduzia era a mulher, um autêntico maçarico na arte da condução. A minha caixa de velocidades era a sua vítima preferida, agarrava-se a ela até fazer as mudanças gemerem...
Teve vários acidentes comigo aquela aselha, uma vez atropelou um sinal de trânsito, outra vez estava a fazer marcha-atrás e bateu contra um contentor. Depois dizia ao marido que eu não estava bom. Ela não andava a pé, arrastava-me sempre consigo e, por isso, estava cada vez mais gorda, desprezava-a!
Certo dia venderam-me a um universitário maluco e alcoólico, fazia de mim “gato e sapato”, ajudava-o nas conquistas e servia-lhe de alcofa nos flirts.
Numa noite chovia torrencialmente, o jovem insensato estava muito embriagado e fazia-me deslizar a grande velocidade, carregava no acelerador como um louco, julgava-se o dono da estrada, por isso fazia-me rodar na faixa contrária, devido a esta insensatez fez-me embater contra um camião. O meu boémio dono faleceu. Fui levado para a sucata! Todos os dias alguém vem à procura de peças... sou desmembrado e humilhado.
Sinto que a ferrugem se apodera do meu corpo. Já não consigo distinguir a minha cor original. Sofro na solidão... o jovem pôs fim à sua vida e à minha por causa do álcool e das suas aventuras perigosas – guiar na via contrária.
Os guardas nunca o fizeram parar quando estava embriagado porque conheciam-no, ele tinha um irmão que pertencia ao mesmo corpo de polícia.
Se a lei fosse rígida e igual para todos... eu estaria a circular pelas ruas da cidade, carregando a felicidade no meu coração.

6 comentários:
Gostei muito do seu texto! Tocou-me, muito...
Sua imaginação é fértil e a escrita fluída!
Beijos de luz e um dia muito feliz!!!
Bom dia!
Excelente texto...
Profundo...
Tarde com muita luz.
beijooo.
Adorei. É um texto diferente e realista independentemente, da personagem.
Bjs e continuação de boa semana.
Boa noite!
Cada vez me surpeendes mais com a tua escrita, com a tua imaginação!
Gostei muito de ler este texto. É, em minha opinião, um texto que embora fale de um carro, parece real e que se poderia aplicar a tantas pessoas que vivem por esse mundo fora! Concordas comigo?
Parabéns!
Um abraço e até uma próxima oportunidade!
Olá Fátima!
Concordo contigo. Infelizmente, estas situações ocorrem com pessoas de carne e osso. O título original do texto era usado e desprezado...
Obrigada, pelo teu comentário,
beijinhos,
Graça Mello
vim só deixar umbeijinho e agradecer as palavras lá no jasmim.
Um bj grande, Graça.
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