Nasci nos EUA, no Estado de Nevada, e fui vendido a um mercador português por uma propícia quantia. Desamparei a casa materna! Quanto ao meu pai, campeão dos pit-bulls, jamais o enxerguei, estava constantemente a percorrer o mundo.
Durante a minha infância confrontaram-me várias vezes com outros da minha espécie, para verificarem a minha agilidade. Outras provas que tive que ultrapassar eram de esforço, para testar a minha força física, as minhas actividades não duravam menos de 35 minutos. No fim dos meus exercícios, o meu dono animava- me com afagos e boa comida.
Durante a minha infância fui conduzido a um médico da região para me cortar as orelhas.
Encarceravam-me num canil espaçoso vedado com arame, geralmente mostravam-me outro cão, sentia-me endiabrado, rosnava, ladrava, tentava saltar a vedação, mas todo o meu arrebatamento era infrutífero. A seguir o meu dono abandonava o tal canino e fazia-me carícias...
A primeira vez que combati, já estava no décimo primeiro mês. Foi uma luta sangrenta, da qual sai repleto de cicatrizes e bastante saturado. O meu competidor, um cão vadio, morreu! O seu corpo foi lançado ao rio. Aniquilei muitos adversários, todavia, na maioria dos casos fui alheio ao desembaraço dos seus cadáveres.
O meu dono todos os meses enfiava-me no porta-bagagem do seu mercedes e transportava-me para um lugar isolado no qual só constava um edifício em ruínas. Dentro, aguardavam-me em alvoroço todos os cúmplices da chacina, os que conservavam o gosto pelo barbarismo!
O combate tinha início com os adversários no centro de um arco humano, ávido de crueza e movidos pelas apostas. Os responsáveis faziam um barulho ensurdecedor: a bater palmas, a gritar e a praguejar... tudo era válido naquela arena de cães raivosos que se dilaceravam até à morte...
A luta só cessava quando um dos cães vence-se o outro. O meu adversário gania de dor até ao último suspiro!
A cena desonrosa dava prazer aos espectadores circundantes, inclusive ao meu dono! Nunca entendi por que razão me subjugava a tanto flagelo?
O esforço que eu empreendia para obedecer às suas ordens deixava-me coberto de suor e fazia doer as minhas feridas abertas pelo concorrente. Abandonava sempre o campo de batalha, angustiado e cheio de chagas. Tenho o meu corpo repleto de cicatrizes que provocam asco quem as vê...
Às vezes pergunto-me:
- Será que nasci para matar ou para executar a arbitrariedade humana?
12 comentários:
Dramático!...um fabuloso texto que pinta de tons cinza a estupidez do homem...
Doce beijo cara conterrânia
Muito violento e fere a sensibilidade dos mais sensíveis. Este texto é para maiores de 18 anos?
Bjs
Caro anónimo!
Obrigada pelo seu comentário.
A verdade é sempre violenta, quando escrevi este texto em 2002, baseei-me em factos reais. Não creio que seja para maiores de dezoito anos, as crianças são seres inteligentes, dotadas de uma grande compreensão e sensibilidade, elas devem conhecer a realidade para poder melhorá-la.
Cumprimentos,
Graça Mello
eis um assunto que me devasta: a forma como o humano trata os animais.
Boas férias
Falas de ouvido?? É que é bem pior.
Olá, Klatuu o embuçado!
Vivemos num mundo onde existe “alguma” liberdade de expressão, por isso todos os comentários ao meu blog são bem aceites.
Visitei o seu blog, no início, achei-o sinistro, mas depois… que a vida o ilumine!
Primeira visita!
Parabéns pelo texto...
Excelente...
beijooo.
E a gente fica a se perguntar: afinal, quem é o animal da história? Nem é preciso responder...
Graça, obrigada e um final de semana bem florido, como o jardim de Edward Bach, esse sim, era UM SER HUMANO! Bjssss
Texto forte, mas que faz pensar.
Concordo com o comentário da (vanuza), quem é o animal???
Bjs, Fica bem.
Faz pensar...
Sorriso:)
Puxa...que belo texto!
Esse assunto me deixa louca.
Não podemos chamar de "gente" esta escória
Olá estimada Mello,
Muito obrigado por tua visita ao meu pequeno espaço bem como os comentários gentis sobre a postagem.
Devo dizer-lhe que muito me agradou sua visita, e que considero Os açores como um autêntico paraíso. Já tive oportunidade, quando visitei outros blogs açorianos de tecer comentário semelhante. Quanto "Vida de Cão", creio que muitas vezes temos necessidade de exteriorizar alguns sentimentos....
Recebas minhas lembranças do Brasil:
Geraldo
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